Publicado por: J.Pinto | 2014/01/05

O tal princípio da confiança – Paulo Baldaia


Fico contente por saber que não sou o único a pensar desta forma. O princípio da confiança pode ser o que nós quisermos, mas  a verdade é que é apenas o que eles querem. Leiam o artigo seguinte do jornalista Paulo Baldaia. Vale a pena.

O país está “vai que não vai”, suspenso pela maior aldrabice que nos enfiaram pelos ouvidos dentro. Chama-se princípio da confiança. É bonito, é lógico, é justo, mas só vale para alguns. É um bom princípio para um país que gosta de gastar hoje o que tem e o que não tem, e amanhã logo se vê.

Por causa desse princípio não se pode, em nome da sustentabilidade da Segurança Social, reduzir as pensões que estão em pagamento. A confiança que esses cidadãos depositaram no Estado não pode ser abalada, mesmo dos que ganham reformas milionárias, resultantes de dez anos de serviço no Tribunal Constitucional, Banco de Portugal e outras coisas do Estado. Mas a confiança dos que ainda trabalham, e já descontaram 30 ou 40 anos, e só vão receber a reforma mais à frente, essa pode ser mandada às malvas.

A confiança dos cidadãos que fizeram um contrato de trabalho com o Estado também não pode ser posta em causa e, portanto, ninguém pode pensar em despedir funcionários públicos. Já a confiança dos cidadãos que trabalham no privado vale tanto como uma máquina de fazer gelo no pólo norte. Há quase um milhão de desempregados e vieram do privado.

E assim, para que ninguém perca a confiança, substitui-se a verdade inteira por uma meia-verdade. O que sabemos é que o Presidente e o Governo comungam da mesma preocupação: é preciso evitar mais chatices com o Tribunal Constitucional. Carrega-se na CES e no corte dos salários da função pública porque o TC já deixou passar uma vez.

Havia alternativas, claro que havia. O que não havia, nem há, são medidas que agradem a todos. O que havia, e vai continuar a haver, é a necessidade de cortar a despesa pública. Medidas estruturais nesta matéria é que também não há, nem vai haver. As corporações não querem, a Constituição dificulta, o Tribunal proíbe e o Governo não as sabe fazer.

O “monstro”, como um dia lhe chamou o actual Presidente, parece domado mas foi ele que nos domou a nós. Nunca o Estado sugou tanto do nosso trabalho para alimentar uma máquina que gasta dois terços do dinheiro que nos leva para pagar salários e prestações sociais.

Na retórica política, sabemos que regras iguais para os funcionários privados e públicos, solidariedade entre gerações, controlo das corporações e reforma do Estado significam aumento de impostos. A carraça não é a troika, é a máquina do Estado. O “monstro” está vivo e alimenta-se da demagogia dos que, reclamando mudanças, trabalham incansavelmente para que tudo fique na mesma.


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