Publicado por: J.Pinto | 2013/10/17

Os novos indignados


Os reformados com pensões acima dos 2000€ são os novos indignados de Portugal. Num país em que grande parte dos reformados ganha algumas (poucas) centenas de euros, é imoral dizer que um corte nas pensões acima de 2000€ é injusto.

Os novos indignados defendem-se dizendo que descontaram para a reforma e por isso não aceitam que lhes cortem nos atuais valores. Vamos às contas. De um forma simples, uma pessoa que ganhe 2000€ por mês e que desconte durante 35 anos cerca de 35% (o somatório da taxa a cargo do trabalhador mais a taxa social única a cargo da empresa no regime normal é de 34,75%) por mês para a Segurança Social chega ao final dos 35 anos com um desconto acumulado de 343 000€.

Se admitirmos que esta pessoa vai receber de pensão um valor mensal correspondente a 80% do seu salário,  o valor acumulado dá para 214 meses, ou seja, cerca de 15 anos.  Todos nós sabemos que o regime de Segurança Social vigente em Portugal está assente no princípio da solidariedade, pelo que estes cálculos não se aplicam aos portugueses, uma vez que o dinheiro descontado não é guardado num porquinho mealheiro, mas é imediatamente gasto nas pensões dos atuais pensionistas. Estes cálculos servem apenas para provar que muita gente recebe durante toda a sua vida um valor acumulado de pensão muito superior ao valor que descontou durante a sua vida ativa.

Sabendo que em Portugal vigora o princípio da solidariedade intergeracional, para que haja equilíbrio do sistema de Segurança Social o valor das entradas (valor dos descontos) tem de ser igual ou superior ao valor das saídas (reformas e restantes eventualidades protegidas pelo sistema). Há muito que o valor das saídas é muito superior ao valor das entradas (refira-se que as saídas não incluem somente as pensões, mas todas as eventualidades protegidas pelo sistema – desemprego, doença, maternidade, etc.).

Como sabemos que este sistema se baseia na solidariedade, então é justo que os mais abastados recebam do sistema um pouco menos do que descontaram para que os mais pobres recebam um pouco mais do sistema do que o valor descontado durante a vida ativa. O que não podemos é defender um sistema baseado na solidariedade (eu defendo um sistema diferente do atual, mas a maior parte dos indignados de luxo defende este sistema, uma vez o valor recebido de pensão é muito superior ao valor que receberiam se o sistema fosse de capitalização) e depois reivindicarmos o recebimento de valores iguais ou superiores aos descontos quando os nossos ordenados e pensões são muito superiores à média.


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